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O Meu Depoimento:





Aos meus Amigos, que por gentileza, curiosidade, ou simplesmente para me sindicarem, tenham o incómodo de me visitar, eu procuro recompensar com os modestos textos que aqui trago.





Aos AMIGOS: deixo um pouco de mim.



Uns e outros, estão convidados a dizer de "sua justiça".



Obrigado pela visita!





Adriano Ferreira Pinto







sexta-feira, janeiro 07, 2011

Carta ao Senhor Professor

Exmo Senhor
Professor
Excelência !

 
        Começo por dirigir a palavra a Vossa Excelência, por via de saber que o têm injustiçado na praça pública.
Não que a culpa seja dos autores de tais aleivosias, que não passam de capazes inúteis ou, na maioria dos casos, de incapazes “úteis”.

       Na verdade, vir acusar uma pessoa do seu gabarito profissional, de não perceber nada de economia (com minúscula, porque é dessa que tratamos), ao ponto de se deixar enredar numa teia e trama de bancários – ainda que “auto-investidos” em banqueiros -, de meia-tijela, NÃO LEMBRA AO DIABO.

       Acreditar que Vossa Excelência não conhecesse, “a fundo”, a personalidade dos dirigentes do Banco, a que vergonhosamente o querem associar, é o mesmo que supor que alguma vez tivesse escolhido para “ajudantes” pessoas em quem não confiasse.

       Reconheço que nem sempre acertou. E, para tanto, recordo aquele “rapaz” a quem Vossa Excelência vaticinou que nunca seria ministro.

   Acontece !
       E sabe Excelência? Acertou!
       Não foi mesmo ministro, mas Presidente do Conselho dos ditos. Cargo para o qual, e felizmente, não é mister ser economista, caso em que o não poderia ser.
     
       Mas quanto a Vós, soube que anda em giro pelo país, por mor de explicar que quer continuar lá em Belém.
       Confesso que me sinto culpado desse seu gosto pela vida no Palácio.

       Na verdade,
       Ainda que desgostoso com a sua insólita parceria com o anterior ocupante, dei o meu modesto contributo para que aí fosse REPRESENTAR os valores que, por essa altura, anunciou como sustentáculo da sua Magistratura, “cooperante”, se a memória me não trai.
      
        Passado este triste lustre de prostração nacional e aniquilamento social, confesso que sinto remorsos do que fiz.

        Na verdade, eu NÃO QUERIA ver posta em “forma de lei” a possibilidade de casamentos entre seres do mesmo sexo. Não lhes chamo “gay”, desde logo porque não domino o inglês, ainda para mais “técnico”, mas, sobretudo, porque lhes chamaria o mesmo que na minha terra, e Vossa Excelência ficaria de carão vermelho.
      
         Pois, eu NÃO QUERIA, que os filhos e netos dos meus amigos menos afortunados, tivessem de ir estudar para escolas onde os OBRIGAM a dizer mal dos Descobridores, dos Missionários, enfim, daqueles que levaram ao mundo o nome de Portugal e a Fé de Cristo.
      
         De facto, eu NÃO QUERIA, que passados cem anos, se mentisse – acaso por indesculpável ignorância dos professores -, acerca do papel dos Reis de Portugal na construção do meu país, e se ocultassem as múltiplas desgraças que a República trouxe a esta terra pátria.
      
         Eu NÃO QUERIA ... ... ...
      
         Eu NÃO QUERIA, mas VOSSA EXCELÊNCIA, ainda que com o meu modesto voto, PERMITIU !

       SOBRETUDO,
         Eu NÃO CRIA, QUANDO fiz campanha e EM SI VOTEI, que passados estes cinco anos - em que destruíram até o estado social que o Estado Novo criou, após recuperar o país da miséria em que o regime republicano o havia lançado -, estivesse a ver milhares de técnicos, licenciados ou não, e suas famílias, a esmolar a parcas sobras dos asilos dos mendigos.

        Compreenderá, por isso, que pouco me importa que tenha sido Sua Excelência, o seu secretário-de-estado – ou “ajudante”, como fazia gáudio em dizer – a recomprar-lhe acções, obrigações ou outros quaisquer títulos de valores.

        Mas,
        TALVEZ A SI IMPORTE, em quem, eu e outros simples como eu, votemos nas próximas eleições !
        Só,
        DEPENDE de SI e DAQUILO que DISSER e FIZER até lá !
Seu,
.
P.S.: começo a perceber porque na Velha Coimbra os “Lentes” exigiam ser tratados por DOUTORES, e não professores.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Ai Zé !

Ai Zé !

Segunda-feira de Ano Bom, sete e tal da noite, entra-me em casa, de supetão e esbaforida, a Maria José – Mizé, para os amigos.
- Oh Zé, tens de me valer. Estou “feita”.
- Eh-lá, menina, que é que aconteceu? Não me digas que apanhaste o Chico com a Amélia, a “tratar do expediente da empresa”, zombetei, enquanto a convidava a sentar-se, com a gentileza de um sargento surpreendido nos seus aposentos.
Devo esclarecer que o Francisco e a Amélia são, respectivamente, o marido da Mizé e a secretaria de ambos, na construtora que o casal herdou por morte do velho Joaquim da Fonte, por sua vez “padrinho” – como se apelidava quem tomava em estima, desvalido ou órfão – do Chico.
Mas convém dizer que a Amélia também é prima da Maria José, por via do casamento com o António do Monte, ele próprio afilhado do Joaquim.
Parece confuso, mas não é.
Antigamente, nas terras pequenas, todos eram de família, entre si. E quando o não eram por nascença, tornavam-se por casamento.
Ora, após o 25 de Abril, e com todas as divisões, cisões e rupturas políticas, que as familias naturais sofreram, houve que apelar aos laços, mais ou menos calculistas, que o baptismo, crisma ou até casamento, havia criado entre os parentes, ora “afastados”.
Mas se isto aqui trouxe, foi para que se pudesse entender o imbróglio que a Mizé me veio expor.
- Vê-lá, Zé Adriano – velha pecha da Maria quando se me dirige –, que sou acusada de burlona; - vociferou, enquanto juncava a mesa da sala de jantar com uma meia dúzia de papéis, tão amarfanhados quanto uma mulher irritada sabe amarrotar, emitidos pelo tribunal.
- Bonito! Sou uma vígara que enganou a família Monte. E mais, que por via disso defraudou o fisco. Tu já viste isto?
Eu, uma mulher séria, que sempre pagou aos empregados. Eu que nunca fiquei a dever nada à Previdência. Eu, que até às Finanças sempre paguei; e sabe Deus que o não devia.
- Vamos lá ver; o que é que se passa? Questionei, meio a brincar, meio a bancar o profissional.
- Ora, o que é que queres, cada vez que prestava um serviço aos “Montes”, eu apresentava a respectiva factura.
- Pelo valor real, claro! Exclamei, com a confessa certeza do pecador que ilude o absolvente.
- Pois, se o negócio era de cem, facturávamos cem mais o imposto.
- Mas isso é normal e legal. Onde é que está o “galho”, Mizé?
- Que raio, não percebeste? Se o negócio era de SEM, faaaacturávamos o imposto. Homem, já entendes?
- Mais ou menos, exclamei, com a indulgência de um irmão e a inquietude do profissional que pressentia ser quem ela mais queria ouvir.
- Será que não percebes? Era só a ganhar. E ninguém perdia, podes crer!
Confesso que não devo nada à inteligência, e por isso atrevi-me:
- Mas o que é que está mal?
-Ora, os “Montes” faliram. Quer dizer, a distribuidora dos azeites. Olha, que eu saiba ninguém fez nada de mal. Mas o David - genro do Guilherme do Monte, esclareço eu -, antes que a empresa fosse ao charco decidiu pagar-nos todas as dívidas.
- Mas eles deviam-vos muito?
Confesso que, por momentos, comecei a pensar que o X-3, em que o Chico anda, estivesse “com reserva de propriedade”, ou a vivenda do Ameal se encontrasse hipotecada, a benefício de um desses bancos, que agiotam o erário público.
- Qual quê, até pagaram aquelas férias no Brasil, quando a Tininha se casou!
- Mas então, qual é o problema? Quis saber, já meio agastado com a história de tantos “primos” no meio de tão “sacro” negócio.
- Ora, o M.P. “acha” que nós recebemos mais do que devíamos e que a empresa foi à falência por isso. SÃO ESTÚPIDOS !
Olha, os Pais, os Melros, os Ramos e os Pintos fizeram o mesmo. Até os Sousa das Ilhas receberam.
- Bem, minha querida, os crimes dos outros não justificam as nossas asneiras. Tu és economista, dás aulas no instituto, e não ignoras que não agiste bem. Mas o teu advogado já to deve ter dito, ou não?
- Pois disse!
Mas eu não quero advogado. Quero ouvir um amigo, que seja um conselheiro como um advogado, um confidente como um irmão, um parceiro como um marido. Só isso. Será pedir-te muito?
- Não, minha querida, mas deixaste passar o prazo.
- Quê? O Jerónimo não ligou aos prazos? Eu mato-o. Mas tu nem leste os papéis ! ?
- Não, minha linda, nada disso, tranquilizei-a:
JÁ NÃO VAIS A TEMPO DE TE CANDIDATAR À PRESIDÊNCIA !
Respondi, enquanto acendia um cigarro e ligava a tv, para ver os debates.